Palavras de Apollo
Um dia, um frio dia de Janeiro, alguém escreveu estas palavras, Apollo escreveu-as. Cravando-as no meu coração como se de uma vingança seca se tratasse…
Recolhi a minha Alma a um canto, protegendo-a, de um golpe profundo e arrebatador. Na verdade, protegi a minha alma de tais memórias, porque, hoje, um ano e sete meses depois, estou a lê-las de novo e a recordá-las, como se elas nunca tivessem sido escritas.
Feriste-me tanto, Apollo. Rasgaste tanto o meu coração, na altura! Mas o tempo passou e eu sou capaz de discernir as recordações, juntando-as uma a uma e apercebendo-me que a culpada fui eu. Eu e serei sempre eu.
«“Onde estás? Em que rocha descansas o teu corpo intermitente?” Questiona-se subitamente Apollo, que então se olhava com a alma nua ao espelho que era a sua mente infinita. A sua devoção por Aponi, cresceria como o germinar na Primavera de um gladíolo, num canto desconhecido do interminável Jardim da Babilónia, mas ela acabara partindo numa jornada que Apollo não poderia acompanhar. Apenas lhe restava as palavras transcritas dos pensamentos soltos daquela “fada” do seu quotidiano, em variados pergaminhos tonificados com a coloração rosada que se assemelhava à face de Aponi. Uma enorme tundra silenciada pelas minusculas brisas que lhe acariciavam os campos abandonados, tornava-se cada vez mais o cenário do coração de Apollo. Pois, por mais que existisse apenas vazio na sua cabeça, actuava constantemente um pequeno toque sobrenatural de adoração, saudade e desespero vinda daquela essência tão rara como a que de Aponi.
E então ele chorou uma lágrima, que mais tarde seria o seu oceano de recordações.
“Até um dia.” – Disse ele para o Nada.»
Aponi
